Pelo que vi nos dois anos anteriores, começou com alto padrão a Mostra Universitária, que trouxe sábado “Balada de um palhaço”, da UCG (GO) e ontem “Corra”, da UFPE (PE).
Ainda não vi o melhor ator nem a melhor atriz do festival, mas Marcelo Oliveira, por “Corra”, é candidato ao prêmio de Melhor Diretor. O grupo também pode levar o prêmio pela iluminação.
Algumas considerações e avaliações dos espetáculos:
Mostra Universitária
Corra
As cenas da conversa no msn e do sexo virtual valem o ingresso. Engraçadíssimas e de fácil identificação com o público, renderam aplausos em cena aberta. Peça extremamente contemporânea, com cada ator representando muitos papéis e mudando de um para outro rapidamente. A genialidade da direção está em, algumas vezes, um ator contracenar com outro como se estivesse olhando para o outro, mas os dois estão em posições diferentes do palco. Essa conversa dividida é entremeada por uma fala de um ator-narrador, que logo vira personagem e cria um jogo dinâmico na cena. Faltou ao grupo, responsável também pela dramaturgia, interligar melhor a parte final com o início. As primeiras cenas, muito cômicas e de crítica à tecnologia, foram seguidas por outra linha, mais confusa e de difícil identificação com a platéia, e empurraram o espetáculo para baixo.
Notas de 0 a 5
Impressão geral (como saí da peça) - 3
Direção - 5
Atuações - 3
Iluminação - 5
Sonoplastia - 4
Figurino - 2
Cenário - 4
Dramaturgia - 3
Média geral - 3,5
Balada de um palhaço
Linda, divertida, e cheia de malabarismos. O texto do grande Plínio Marcos conta a história de um palhaço que quer trabalhar com a alma. Tocante história, mostrada com muitas ações paralelas ao texto, que dão a graça e o pique das cenas. Os dois atores fazem movimentos abertos para dialogar pisando em cima do outro ou apoiado nos pés do ator que se deita e põe as pernas pra cima, criando imagens bonitas que completam uma bela produção de cenário e figurino, inspiradas no circo.
Impressão geral - 4
Direção - 4
Atuações - 4
Iluminação - 4
Sonoplastia - 3
Figurino - 5
Cenário - 4
Dramaturgia - 4
Média geral - 4
Outras atrações do Fitub
Cien Pedacitos de Mi Arenero
Obrigado, Furb, pelas legendas colocadas na parede ao lado do proscênio, que me fizeram entender essa brincadeira de menino. Quatro homens matam suas respectivas esposas e passam a viver com uma amargura intercalada por sarcasmo, risadas e muito companheirismo. Lutam entre si, dormem abraçados e cantam canções melancólicas com muita atenção ao tom e ao andamento da música, em atos cômicos que lembram instantaneamente os encontros entre homens. Belíssima manifestação do masculino, recheada de reflexões filosóficas. A peça volta a ser apresentada hoje, às 19h, no Sesc da Rua Amadeu da Luz.
Impressão geral - 5
Direção - 4
Atuações - 5
Iluminação - 4
Sonoplastia - 4
Figurinos - 5
Cenário - 3
Dramaturgia - 5
Média geral - 4,5
Larvárias
Um dos cenários mais belos que já vi, simulando um óvulo. Conta comlirismo o momento da concepção. Peça sem falas, com os atores usando máscaras e exibindo uma invejável preparação corporal. Muito devagar em várias cenas, a peça provocou cochilos em boa parte da platéia.
Impressão geral - 2
Direção - 3
Atuações - 4
Iluminação - 2
Sonoplastia - 3
Figurinos - 4
Cenário - 5
Dramaturgia - 4
Média geral - 3,5
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Fui na terça, fui na quarta, e pediram pra voltar na sexta. Pra comprar ingressos antecipados pro Festival Internacional de Teatro (Fitub) na Furb. Nos dois dias, a desculpa que não puderam vender porque os ingressos não estavam impressos. Só que tinham divulgado pra ir lá garantir, e a atendente falava como se fosse brincadeira. Sim, há quem trabalhe com arte e ache arte brincadeira. E nada quis fazer pra solucionar meu problema.
Doença, stress no trânsito, tudo seria evitado com arte, mas o povo só fala de arrumar os hospitais, as estradas e as leis. É preciso sangue na arte, e em grandes doses pra Blumenau. Onde está o poder público no maior evento de arte da cidade (este, o Fitub)?
Eu tive que pedir pra incluir meu nome pra deixar ingresso reservado quando eu chegar pra peça de abertura, sexta. Pediram pra eu chegar horas antes, “ou será difícil explicar pra todos na fila que eu estou te dando o ingresso”. Pera: quem terá chegado primeiro, eu ou eles? Quem tem que entender alguma coisa?
Há que se notar que a Furb arca com o prejuízo do festival e que os professores e alunos que fingem organizar o evento estão dando aula até hoje (hoje mesmo, quarta-feira). Então, quem olha pelo festival? Quem vai cuidar pra que ele não morra, pra que o serviço público primordial do município continue sendo prestado pelos próximos anos?
O blog fica focado no festival até o fim do evento. Se eu conseguir ingressos, vou a todas as peças da noite. Teatreiros, bem-vindos! Abraços. Que o próximo barulho seja o do aplauso!
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A vizinha de baixo chegou semana passada e já quer cantar “move as águas, senhor”, às onze da noite. Eu durmo tarde, é verdade, mas tenho ouvidos e um chão de madeira fininha, e um amigo que acorda às seis da manhã por causa da mesma cantoria. A que horas ela dorme?
Vai ser tratada a Velhas Virgens a artista. O bicho vai pegar até que alguém se mude, ou se mude. Repare que a tolerância dos ateus é maior que a dos evangélicos, o que aumenta minhas chances ela se render. Não é à toa que ninguém mata ou morre por ateísmo. Gloriosa vantagem de representar um grupo reliogoso sem camisa e sem bandeira como o meu. O que seria a bandeira do ateísmo?
Eu, que já entreguei cópias de um texto ateu antes de uma missa e fui enxotado da igreja a empurrões, pouco tenho feito contra o monstro do cristianismo que assombra as mentes da nação e tal, mas nunca sofri de saudosismo e depressão pós-punk, como tantos velhos do meu tempo. Sabia que a tranqüilidade era amiga da persistência, e a prova veio agora. Eu tinha uma missão: vencer a vizinha.
Indicações de músicas ateístas são bem-vindas.
Fiquem com vocês mesmos, que estão muito bem cuidados, e até o próximo post!
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Honra
Hoje virei personagem da coluna do Fabrício Cardoso no Santa. Nada melhor para um experimental do que ser reconhecido publicamente, ainda mais nas páginas de um jornal, para os arquivos da eternidade, céu da minha religião. Ainda mais quando minha fala é lembrada para causa tão nobre quanto o raciocínio de que as mulheres, quando pedem para que bebamos álcool, querem só o desafio de nos influenciar mais tarde.
“Não sei se meu amigo ainda madruga para, seminu, se contorcer sobre uma toalha estendida no chão. Porém, o cara exibe a paz quase irritante de um praticante de ioga.” leia o texto na íntegra aqui
Eu me contorso seminu, mas sobre um eveá. De madrugada? Quase (umas onze da manhã).
Burguesia
Primeiro, cartas chegam à redação criticando a reportagem sobre os homossexuais em Blumenau, brilhante trabalho de Magali Moser publicado nas edições de 17, 19 e 20 de maio no Santa. Gente dizendo que deveríamos valorizar a relação heterossexual, valorizar a estrutura familiar. Depois, ninguém fala da reportagem sobre os bóias-frias, trabalhadores que comem, mijam e cagam na rua por falta de apoio da prefeitura de Blumenau. A foto brilhante do Jandyr Nascimento, que teve a idéia da pauta _ eu fiz o texto _ saiu na capa deste fim de semana. Agora, eu já ia lançar uma aposta: a de que vai chover cartas falando mal dos andarilhos do Parque Ramiro Ruediguer, na matéria publicada hoje. Mas já saio ganhando a aposta,porque o mural sobre o assunto no site trouxe a seguinte opinião:
“acho que deveria haver uma soluçao para isso pois quando estamos com nossas familias eles vem e pedem dinheiro e cigarro isso fica chato poiss trabalhamos tanto para sustentas nassa familias e pessoas desse tipo fazem nossa crianças pensarem que se ficarem sem emprego poderao pedir coissas as pessoas e seria mais facil do que trabalhar é um mal exemplo para a sociedade e turistas”
Depois não sabem por que eu digo que Blumenau é burguesa demais pra mim.
- Eu pedi água numa casa em que me disseram “não, eu uso porque eu pago” - Gilson Clóvis May, pedreiro
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Para quem olha o post assim, sem desenho, nem parece que eu estou desenhando todo dia, desde segunda-feira da semana passada (sábado e domingo não conta). Me embrenhei num quadro realista. Três mulheres na cena. O realismo é o jornalismo das artes visuais. Ao mesmo tempo em que é o estilo mais chato, é o que mais dá reconhecimento ao autor. Chato, claro, porque tem a pretensão de alcançar o impossível: imitar a realidade. A sensação de disputar um jogo é constante. É preciso vontade de vencer. O que me levou a essa baixada de nível? Um pouco de compromisso profissional, baseado em conselhos de dois amigos poetas de Blumenau:
“Blumenauense valoriza a arte, mas desde que você mostre que trabalha” e “O realismo é onde o artista mostra que estudou pra fazer aquilo”.
Voilá! Confira o quadro em breve. Ou melhor, vai demorar um bocado.
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Texto meu, de 2007, para o extinto www.opinoquio.zip.net, que ecoa nesse momento:
Desenho de viado
-Pra que esse desenho? É igual a uma foto trabalhada no computador!
-Ele me desenhou à mão! Isso aqui, aqui e aqui, é tudo traço dele!
-É não ter nada pra fazer mesmo…
-Você nunca me desenhou à mão!
-Eu faço caricaturas!
-Mas eu quero aparecer bonita no desenho, não como você faz os seus amigos!
Ele pensa enquanto ela estende a roupa.
-Taí, é viadagem! Teu amigo é um viado!
-Ai, por favor…
Ela leva as roupas para o quarto. Ele a segue.
-Mas é! Um viado! Porque quem desenha assim é porque gosta dessas coisas: “ai, mas foi tudo feito à mão”. “Ai, ficou igualzinho à foto”. Um viado!
Ele que nem caricatura dela tinha feito. Um viado.
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Eu olho, tu não olhas
Tu chupas, eu me molho
Tu me mudas, te adoças e emudeço em meu almoço
Levas minha infância em flocos na tua língua
ó-lho-se-xo-do-cê!
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A Texfair, feira têxtil que começa amanhã em Blumenau, já deu sinais de que será uma festa ao contrário. Em vez de troca humana, será uma troca de dinheiro. Se dinheiro não compra amizade, é a ferramenta mais adequada pra comprar inimigos. Quem ainda duvida pode conferir os motivos dos homicídios pelas notícias de jornal, ou ler a frase de Renato Valim, organizador da Texfair, no Jornal de Santa Catarina de hoje. Ele comenta à repórter Daiane Costa sobre as feiras que ocorrem paralelamente à Texfair, em Blumenau e região:
- São todas parasitas. Enquanto nós investimos muito (ele não revela o valor) para trazer jornalistas e empresários estrangeiros, estes outros eventos pegam carona sem nenhuma contribuição. Mas não há o que fazer. Não tem como proibir.
Se fosse na Oktoberfest, carnaval ou num festival de teatro, quanto mais gente, melhor.
Texfair: grandes preços, grandes inimigos.
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Falava em se divertir, cumprimentava todo mundo, mas gostava de Blumenau. Desafiava meus conceitos. Com ele, eu me via falando “transar com duas mulheres ao mesmo tempo”, bem alto, no terminal de ônibus. Inesquecível.
_O negócio é não ligar pra essa gente conservadora e ser feliz.
Pra isso, gostava de botar a mochila nas costas e ir pro litoral. A cama podia ser um gramado ou um banco de praça. O importante, pra ele, é poder dizer que se aventurou.
Eu sabia que ele teria um conhecimento diferenciado pra me passar antes que eu comece a fazer as aventuras que prevejo pra este ano.
_Vem cá, mas como é que tu faz pra pegar mulher? _ pergunto.
_Ah, qualquer cantinho.
_Mas elas não gostam de um cantinho na primeira vez.
_Elas gostam da tua atitude. Tu tens que dizer: não tenho carro, não moro aqui, mas quero transar contigo. Eu chego assim pra elas, ó: vamo comigo ali no matel?
“Matel” foi a grande descoberta do meu ano de viagens, e o operário de indústria foi um dos maiores filósofos que conheci em Blumenau.
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A ilha e o frio na barriga seguiam pela minha cabeça viagem adentro quando ela se deitou no meu peito. Protegida de mim pelo banco do ônibus. A noite avisava que ia ficar mais complicado chegar sozinho à cidade desconhecida. Pior: seria mais difícil ver o rosto dela. Melhor esticar o pescoço agora.
Ela dorme.
A ilha e o medo, o segredo nos bicos dos seios, a aventura de olhar a musa enquanto as amigas dela seguiam acordadas. Miro a lanterninha do teto do meu banco em direção aos olhos dela.
Ainda dorme, e eu mais vejo. Volto. Torno a subir e nem sei mais qual Floripa passa agora. Só sei o seio o seio o seio.
Acordam-se. Garopaba já e eu sentado de volta. Levantam-se mais peitos e fios loiros pra se mostrarem tão perdidos quanto eu.
Uma delas fala com o motorista baixinho. Só ouço:
- Ah, mas qualquer coisa vocês não vão ter problema pra arranjar carona!
O carnaval estava só começando, e o dinheiro pro carro nunca mais fará falta.
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