Viegas Fernandes da Costa, colaborador do blog Um Escambau, postou lá uma crítica ao movimento que resultou no Nosso Inverno. Um posicionamento semelhante aos de Pépe Sedrez, Gregory Haertel e Márcio Cubiak (estes três ligados à companhia Carona de Teatro, integrante do evento), de que o movimento só é válido se protestar claramente, em forma de texto dramatúrgico interpretado na abertura da mostra, contra as políticas culturais da cidade.
Quem consultar as minhas postagens de fevereiro e março ali nos arquivos do blog vai entender melhor as razões dessa insatisfação, que compartilho. No entanto, entendo de maneira diferente o trabalho político de um artista, e o papel político da arte. Até porque a discussão toda se originou a partir de uma mudança no cronograma, em que o Espetáculo-Manifesto foi transferido da posição de segunda atração na programação, às 19h, para a 1h, por questões de infra-estrutura, já que logo em seguida viria um show da banda Casa de Orates no mesmo palco, e este show tem uma aparelhagem muito semelhante ao do show de abertura, do Pochyua – e de montagem demorada.
Chamados para discutir o cronograma, os integrantes do Espetáculo Manifesto se manifestaram só depois do prazo estipulado pra discutir o assunto, e pelo que parece apostaram na impressão que tiveram, a de que havia um boicote da organização contra o espetáculo.
Enquanto membro da Comissão Organizadora do Nosso Inverno, defendi que o Espetáculo Manifesto fosse modificado para amenizar o tom de repúdio às políticas culturais do município. Uma reunião com os autores da peça pra tratar do assunto, no entanto, resultou num acordo de que o teor agressivo permaneceria ou seria até acentuado, e que apenas seriam modificados os trechos que colocavam o público numa situação um pouco diferente da que se espera para um espectador: alguém que não sabe que a briga está acontecendo e acompanha um posicionamento fora de contexto, uma fala de artista contra governante, contra a Furb e contra outras instituições que vejo como possíveis aliadas numa caminhada que está apenas começando, rumo à popularização da arte em Blumenau. Infelizmente uma acusação foi levantada por eles por e-mail antes que confirmassem o real motivo da transferência.
Política e arte
Quando tinha 19 anos, cometi uma imprudência política. Na Igreja Matriz de Itajaí, antes de uma missa de sábado à noite, distribuí aos fiéis panfletos com argumentos anti-cristãos, escritos da forma mais racional que eu consegui, a fim de provar por A + B a falsidade dos discursos que ouviam semanalmente naquele estabelecimento imponente no centro da cidade. Fui enxotado. Me orgulhei na hora, é verdade, mesmo porque dois garotos pararam para ler e discutir entre eles o texto. Isso antes de eu ser empurrado por um ministro da eucaristia.
- Tu vais bater em mim aqui na Igreja? – desafiei, na esperança de acabar no Diarinho.
- Vou! Se tu vais falar mal do meu “pai” eu vou te bater sim.
Ri porque estava provado que o catolicismo não amansa ninguém nem pode gerar uma espécie de “amor total” entre os seres. Ou eu achava que estava.
Passados seis anos, ainda não colhi frutos daquele ato medíocre nem tive sinal de alguém que tenha mudado seu pensamento a partir de meu texto. Só colhi as risadas do meu amigo e então professor de Sociologia, Magru Floriano, a quem fui pedir conselhos sobre como continuar o que supunha ser uma empreitada rumo à revolução religiosa. Hoje ainda o encontrei e rimos daquele erro. Não virei católico, mas sei que organizar uma roda de samba no altar teria me ajudado muito mais a converter cristãos ao ateísmo.
Sempre pela vontade do grupo
Talvez eu cometa outro erro ao acreditar no movimento de popularização da arte na cidade, mas me parece uma caminhada bem mais sensata que a do meu sonho aos 19 anos. E desta vez estou com a proposta certa no lugar certo, acredito.
Assim também entendeu o coletivo que estruturou a proposta do movimento, com cerca de 30 artistas reunidos dia 18 de maio em assembleia na Fundação Cultural de Blumenau. Era o momento de discussão, agora é o momento de oba-oba.
No momento de protesto, eu estava lá quando jogamos na cara da presidente da Fundação Cultural e do presidente do Teatro Carlos Gomes as nossas insatisfações. A conclusão que se tirou foi a de que deveríamos fazer em vez de falar. Essa conclusão foi destrinchada e colocada em discussão várias vezes para todo o grupo de artistas, inclusive para quem agora questiona uma alteração de horário a partir de um cronograma prévio. Aliás, o Espetáculo Manifesto, quando começou a ser bolado, não previa que fosse apresentado num horário inicial. Quem decidiu assim foi a Comissão Organizadora, a quem se outorgou esse direito em assembleia geral.
Agora, no espaço que pedimos pra arte, antes de tudo é preciso pensar em arte, e o espetáculo Manifesto integra o evento, não o resume, porque ainda nem sabemos como é esse movimento. Vamos ver com o tempo.
Divulgação é pra quem faz
Talvez o “oba-oba”, a propaganda do evento, tenha provocado no escritor um repúdio ao que ele chamou de “onanismo coletivo”, mas eu, debaixo dos meus oito anos de arte, dos quais quatro em Blumenau, dois num tremendo vazio e os dois últimos surpreso com a crescente movimentação artística da cidade, só tenho que estimular que um encontro como o Nosso Inverno aconteça, até mesmo para suscitar o debate que se inicia pelo texto de Viegas, e pela troca de ideias que ocorre no grupo de e-mails dos participantes.
Estamos todos nos descobrindo num novo momento artístico, até mesmo porque, independentemente de todo o processo histórico de mobilização descrito por Viegas, tanto o público como as ferramentas de trabalho e divulgação mudaram, e novos artistas surgiram. É uma nova cena.
Aqui no meu blog e em outros meios cansei de ver gente tentando nomear esse movimento. Há uma necessidade de se identificar essa nova onda de arte na região, e tudo começa por nos colocarmos lado a lado sem distinção, chamando o público e participando em conjunto dessa construção de uma identidade.
A origem
“Lembro-me quando o Márcio lançou a ideia lá no Escambau”, refere-se Viegas. Que ideia? O Márcio propôs invadirmos a praça, trocamos algumas palavras sobre o assunto, um grupo foi por outro caminho e ele abandonou a ideia. Mas quem criou o Nosso Inverno não o abandonou. Tanto que temos a parceria com o Sesc e com o Carlos Gomes e a divulgação que a mídia tem dado, além do apoio de pessoas simpáticas ao Festival de Teatro. Cada cidadão está livre para levar adiante (ou não) o projeto que considera mais adequado pra sociedade.
Provincianismo
“O festival movimenta gente de fora, o Nosso Inverno movimenta quem?”, pergunta Viegas. O Festival de Dança de Joinville movimenta muito mais, então vamos desistir do Fitub porque ele não interessa, é isso? Será?
Ou será que temos que ser provincianos, como critica Viegas no próprio texto, e prestigiar só o que está aqui?
Temos que esquecer rivalidades e saber que todo evento é bem-vindo, como Viegas concorda, e que podemos “beber da cachaça” que quisermos. E saber que um evento feito em três meses por artistas sem ser pago pelo poder público ou por uma universidade não tem como atrair participações de artistas de fora. Não numa primeira edição, mas se tudo der certo um dia vai ser assim.
Purgatório
Outra frase do texto: “A cidade precisa purgar seu descaso”. Faça um purgatório e convide a todos. Eu compareço e prestigio até onde eu aguentar. Quem mais?
Na ativa
Viegas diz que ninguém fez nada pelo festival. Os artivistas do Nosso Inverno estão fazendo. Todos sentimos falta. Mas, se Viegas pede “desculpem o desabafo, mas não aguentava mais ficar quieto”, eu rebato: desculpem o Nosso Inverno, mas não aguentava mais ficar parado.
Por isso um evento que gera o debate, que traz à tona os trabalhos dos novos artistas. Por isso queremos a presença, lá, de todos que gostam de arte, inclusive no Espetáculo-Manifesto, mas não concordo que o teor do evento seja um protesto, e por isso não vejo como primordial a colocação do espetáculo pra abrir o evento, colocando em cheque uma infra-estrutura baseada num pedido da assembleia de 18 de maio, de que o evento fosse tocado por 24 horas seguidas, o que valoriza o horário da 1h.
Beijos, abraços, vamo que vamo!









