Costa de Souza

Eu também quero a receita

Novembro 10, 2007 · 4 Comentários

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Uma contradição me pega de surpresa quando pergunto a ela o que a levou a escrever o texto. Sempre me neguei a responder a perguntas como essa, por entender que o produto final é o que vale, e se estraga quando se conta o motivo da obra. Tira a unidade, muda a intenção do artista ao se expressar.

Preciso conhecer quem gosto, mas reconheço que o artista precisa de um escudo. Eu sempre o levanto pra minha mãe, e agora me vejo no lugar dela. Ela faz essa minha perguntinha indiscreta quase sempre. “O que tu estavas sentindo nessa hora?”.

Mamãe, desta vez eu estava pensando em ti e me passa que tu queiras o poder de provocar novamente em mim essa sensação que me levou a te escrever. Eu, envergonhado, não sei o que dizer. Vai que um dia a resposta não possa ser dada! O que eu faço? Já me previno.

Bocage também se escondia. Ele não estava falando sério quando escreveu esse trecho do auto-retrato:

“Devoto incensador de mil deidades
(Digo de moças mil) num só momento
Inimigo de poetas e frades

Eis Bocage, em quem luz algum talento
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou cagando ao vento.”

Só bocageando, mãe. E tu não gostas.

Categorias: Arte

4 respostas Até agora ↓

  • mona lisa budel // Novembro 10, 2007 às 12:22 pm

    rss … adoro as tuas contradições …

    Evito perguntar o que levou alguém a escrever isso, ou aquilo, mas sempre que o texto ou o desenho me desperta milhões de sensações, gosto de saber e fico curiosa pelos sentimentos ou pelo momento do artista

  • Jhol // Novembro 11, 2007 às 2:11 pm

    Altos contrastes

    Fiquei até meio confuso com essa situação, mas as vezes, podemos refletir nas idéias quando identificamos traços distintos de sensações.

  • Fábio Ricardo // Novembro 12, 2007 às 7:53 pm

    Acharia difícil responder essa pergunta. Até pq quando escrevo não sou eu, é algo a mais que entra em mim e flui em palavras. Eu não sei o que escrevo quanbdo escrevo. Com o teclado em mãos viro Fred, meu Gêmeo Mal. Se alguém quiser saber, que pergunte a ele.

  • Ana D // Novembro 13, 2007 às 6:54 pm

    Acho que muito do fascìnio de uma obra é o autor deixar que as pessoas divaguem sobre ela. É claro que é curioso saber o que pensam e entendem, mas é bom que não as induza a uma determinada opinião…E também existem os autores que não fazem coisas inspiradas em si mesmo, mas apenas em impressões externas…

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