Costa de Souza

Entradas do Novembro 2008

Carta ao Astolfo (que fala de amor só em tempo de guerra)

Novembro 27, 2008 · 2 Comentários

Sentei ao lado dele com a programação do Festival Universitário de Teatro de Blumenau, em julho. Eu queria que o povo desse mais atenção pra arte, mas o festival estava escondido, esquecido. Ele puxou um diálogo que conduzisse àquela frase final, doída: “o Daniel ainda acredita no ser humano”. E riu.
Astolfo, mais de 20 anos de jornalismo. Depois da enxurrada, veio dizer que o povo catarinense sempre foi solidário e agora precisa ser mais ainda. Como se ele também acreditasse.

Claro, Astolfo, agora é bonito vir a público pedir isso. Amanhã não vai ser. Tu tens aqui um nome que não é o teu, pra te preservar de qualquer açoite. Porque tu sabes como é feio agora dizer que o ser humano não tem jeito.

Eu sentia falta de maior cobertura jornalística pra um evento do porte do Festival de Teatro da minha cidade, e ele ria. Porque não vale a pena falar de respeito ao próximo, sensibilidade. Vale a pena dizer que alguém matou, tem que ser preso, que o político roubou, que a estrada está inadequada pra tanto carro. Claro, porque sensibilidade nada tem a ver com condições dignas pro povo viver. Claro, porque arte é desnecessária, ela só ajuda a entender o ser humano, essa raça que não se respeita e tem que ficar lá, de lado, pros políticos poderem ditar o ritmo da evolução. Esse povo não-instruído, essa gente que deveria ter a casa desmoronando. É isso, Astolfo? A casa desmoronando? Tu que dizes que viver é vencer, que cada um tem que se preocupar com seus interesses e apenas ser o melhor de todos no que faz,  Astolfo, agora vens pedir que essa gente se ajude, agora vens falar de sensibilidade. Tu és a escória!

Estou farto, Astolfo, estou fudido, fedido e espero mais amor daqui pra frente. Tu vais falar da mesma coisa de sempre amanhã, quando o discurso efêmero da solidariedade não valer mais a pena pra tua imagem de formador de opinião. Diga agora, em texto público, que não vale a pena falar de amor! Propagador do ódio!

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Fim de ano sem arte na prefeitura

Novembro 26, 2008 · 2 Comentários

A Fundação Cultural de Blumenau cancelou todas as atividades culturais de final de ano. Até 31 de dezembro, os espaços culturais (Museu de Arte de Blumenau, Espaço da Cultura Popular e Museu da Família Colonial) ficam fechados e as inaugurações dos espaços culturais Praça Érika Martins Flesch, Casa do Artista e Centro Cultural Elio Hannhemann, previstas para 3 de dezembro, foram suspensas.

A programação natalina também está cancelada. Aliás, o papai noel é normalmente o centro das atenções em dezembro na agenda do município, e deveria chegar de helicóptero no shopping Neumarkt no sábado da enchente.

Com muita dor, tenho que concordar que a arte nessa hora é imprópria. Espero que assim que nossas vidas voltarem a andar pra frente, e não de lado, como bem descreveu o blogueiro Rogério Christofoletti, a arte passe a ser fundamental. Que as pessoas recorram a ela, porque ela vai ajudar a manter o altruísmo e a união no Vale do Itajaí. A arte serve pra unir os humanos em prol de um futuro melhor, e será muito bem-vinda em breve.

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Minhas terras depois da enchente

Novembro 26, 2008 · 2 Comentários

Blumenau e Itajaí, as duas únicas cidades onde morei, vão se tornar ainda mais diferentes entre si depois da catástrofe de final de semana. Em Itajaí, as famílias vão precisar de ajuda pra comprar eletrodomésticos que se perderam com as águas. Na marrom blumenáutica, o prejuízo é grande e ainda difícil de somar.

A força da economia de Blumenau está na indústria, abalada com as perdas de máquinas, matéria-prima e mercadorias. A habitação vai viver fase peculiar, com mais preocupação com a infra-estrutura. A cidade rodeada de morros é a que mais deve sofrer com a lentidão no desenvolvimento econômico nos próximos anos. Tomara que quem perdeu suas casas tenha lugar e auxílio pra morar longe das encostas, lugares em que o mercado imobiliário cobra preços mais altos e ainda pode aumentá-los.

Balneário Camboriú, também atingida, deve sofrer bastante de imediato. Com a chegada do verão poderemos medir o prejuízo no comércio local, incluindo Itajaí. Mas, pro ano seguinte, pode voltar tudo ao normal. Não é só o clima que tem que propiciar isso, mas também a consciência do povo.

Até quando vamos ficar rezando pro clima melhorar e dar a mínima atenção pra infra-estrutura? Até quando vamos ficar sem um radar meteorológico, sem vias adequadas pra transportar as pessoas pro interior em momentos de pânico? Até quando a região marcada pelo encontro do rio com o mar vai achar que é como todas as outras? Até quando Blumenau vai viver sem perceber que o rio pode ser aproveitado pro bem, e que se preocupar com as cheias é uma contrapartida? Que as encostas dos morros podem causar perigo e os lixos nos ribeirões também? Até quando?
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O Diarinho atualiza um ótimo blog sobre a situação de Itajaí. Força, minha terra natal! Unam-se pra recuperar a alegria marcante desse povo!
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Um grupo de amigos de Blumenau se juntou pra oferecer as informações pelo blog Notícias de Blumenau. Algumas notícias são tiradas de fontes confiáveis e os integrantes demonstram bastante responsabilidade quanto à exatidão das informações.

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Novo retrato

Novembro 24, 2008 · 5 Comentários

Lembro que recebemos visita de amigas aqui em casa e fomos ao bairro Garcia ver um filme juntos. Eu tinha acabado de pintar minha Sambista. Sexta-feira agora, à noite. Tempo bom que não volta mais. O fiscal da prefeitura diz que vai levar uns dois anos pra reconstruir tudo o que ruiu em Blumenau, por todos os lados. Não vai. Tem coisa que não volta mais. Vai surgir uma Blumenau nova.
A vizinha de baixo vai se mudar. Entrou água na casa dela sábado e vi a primeira cena chocante do fim de semana. Desci pra ajudar a tirar a geladeira quando só estavam as duas meninas pequenas em casa. A mãe delas estava trabalhando. Tive que pedir ajuda da menina maior pra erguer a geladeira um degrau acima no piso. A menina ficou com um dedo mindinho da mão preso no pé do aparelho. Gritou, a irmã menor também. Que bom que consegui soltá-la e arranjei ajuda dos vizinhos pra tirar tudo que precisava da casa inundada. Estava só começando.
Gente que mora perto morreu soterrada, gente que amo só dava notícia quando conseguíamos completar a ligação telefônica. Enxurrada, morros derretendo feito sorvetes. Ergui meu computador, meu teclado de música e meus desenhos. É o que tenho. O resto é resto. É minha terra, o Vale do Itajaí, a família e os amigos ilhados.
O limite de uma casa pra outra aumentou com a água e o barro, mas de uma pessoa pra outra, todos os limites diminuíram. Quem era bandido até prova em contrário, como a maioria das pessoas numa cidade capitalista do século 21 costuma pensar, passou a bater na porta pra oferecer o pão que comprou a mais quando conseguiu andar até a padaria. Foi mais um cena chocante. Essa de gente que eu sempre vi e nunca dei “oi” lembrar que eu precisava de ajuda. Somos pequenos. Somos pouco diante da água.
A rua está livre de novo e estou seguro em casa, mas o abastecimento de água e energia elétrica está comprometido. Tudo mudou. O jornalismo em Blumenau viu a Furb TV e a Rádio Nereu darem um show e crescerem na confiança do público, o piso da minha rua está mais rachado, eu mais reflexivo, fedido, com sede de água e abraços. Mudamos, todos, de um jeito que ninguém mais recupera.

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Sambista

Novembro 21, 2008 · 1 Comentário

sambista

A partir do clipe “A história da morena nua que abalou as estruturas do esplendor do carnaval” , de Max de Castro. Dei um pause com 1:37 desse vídeo pra me basear para a pintura, feita em acrílico sobre papel.

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Pós-nós

Novembro 17, 2008 · Deixe um comentário

O organizador da fila de entrada da Bienal tentou botar ordem na minha cabeça depois de eu sair do tobogã do Carsten Holler, mas não foi fácil. Descemos do tobogã num hall que antecede toda a fiscalização para o acesso à 28ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo.

- Só quem tem bolsa vai pelo corredor – pede o figurão. Eu estou sem bolsa, mala, ou qualquer compartimento maior que a capa da minha câmera digital.

Eu: - Tá, mas por onde a gente sai?

Pergunta errada.

- Sai por lá - por trás, de onde eu vim, e na verdade eu não queria sair.

“Está bem, cometi um engano”, penso, e sigo pelo corredor proibido.

- Só quem tem bolsa vai pelo corredor - dessa vez ele grita, me elogiando de louco por não ter cumprido a ordem.

O tobogã talvez libere uma dose de adrenalina, mas é mais que um brinquedo do Beto Carrero. Colocado num prédio desses bem quadrados de São Paulo, para dar acesso de um andar a outro (só pra descer, é claro), o tobogã passa a ser alternativa pra nossa casa, passa a mudar o que pensamos sobre deslocamento, e deixa a gente nesse estágio sublime em que uma ordem de um fiscal é uma zombaria. Talvez o tobogã seja uma obra de arte. Talvez, como quase tudo na instigante Bienal.

A Bienal, aquela do Vazio. No segundo andar, Maurício Ianês está lá num canto, diante de centenas de metros quadrados de piso sem obras, só com a fila pro tobogã preenchendo parte do espaço. O prédio cinza nem é tão bonito por dentro. Niemeyer só mostrou a que veio ao projetar a rampa, essa sim de um desenho atraente. O vazio irrita, e encontrar o artista no meio dos objetos que recebeu do público da Bienal é uma esperança. Já que não há mais o que fazer por aqui, vou falar com ele.

- Consegue comer todo dia? – pergunto enquanto ele termina uma fatia de bolo.

Maurício me olha firme, sem expressão alguma, e nada responde. Até que começo a rir, ele não, e o povo que forma uma roda em volta dele me deixa envergonhado por ter feito uma pergunta sem resposta. O “educador”, como são chamados os funcionários que orientam os visitantes, explica que a proposta do artista é não falar nas duas semanas em que está morando no prédio, sem ter levado roupa, comida ou qualquer objeto. Está vestido com uma camiseta e uma bermuda enorme. Precisou apertar bem o cinto pra usá-la. Um menino aperta a mão dele e o artista também deixa o garoto inibido com o silêncio. Também lhe cumprimento e lhe abraço. Ele corresponde e me olha com gratidão ao se soltar. Foi o segundo andar da Bienal.

O terceiro foi a loucura liderada pelos vídeos. Adorei a Elijah, com filmes exibidos em três ou quatro quadros simultaneamente. Diversos ângulos promoveram interatividade e embaralharam a  cabeça. Era pra embaralhar mesmo aquele andar, sem muita explicação. O pós-modernismo, na visão da curadoria da Bienal, não cabe mais nas telas penduradas na parede. Não lembro de ter visto uma tela sequer por lá. Barulho. Muito barulho, em oposição ao Masp e à Pinacoteca. Algumas boas surpresas, algumas simples decorações, obras sem emoção. Em vivo contato com um futuro incerto, e certo de ter participado de um divisor de águas na arte brasileira.

A viagem, com as fortes sensações do Masp, da Pinacoteca, do Museu Afro-Brasileiro e da Oca e da própria Bienal, foi um banho de arte, com oportunidade de conhecer cada vertente histórica e de rever Monet, Renoir e Van Gogh, sempre mitológicos. A pincelada desses gênios continua exercendo em mim um teor religioso. É uma vida pós-morte bem ao meu estilo, com tinta e pincel. Estilo? Eu tenho um? Pincel…pra quê?

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Rumo ao Vazio

Novembro 14, 2008 · 1 Comentário

va-zi-o-bienal

Parto hoje pra São Paulo. Vou à Bienal, à Pinacoteca e ao Masp. Aguardem as histórias e reflexões na segunda-feira por aqui.

Só uma coisa: mensagem, não. Quem quer mandar mensagem tem Orkut, celular…exposição não é pra mandar mensagem. Estou com isso bem vivo, à espera de um contato bem diferente. “Communication Breakdown”, pane na comunicação. O mundo está em pane! Nós só queremos o Vazio!

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Insubstituível

Novembro 14, 2008 · 1 Comentário

vegetarianismo2

A proteína mais facilmente digerida e assimilada pelo organismo – a vegetal – é insubstituível.

O amigo “Sábio” Ricardo vai fazer o teste e passar a próxima semana sem comer carne. Acompanhe o drama e torça por um final feliz.

O meu teste este mês completa dois anos e resultou numa dieta mais saudável. Esta semana tentei voltar a comer carne. Comprei uma lata de sardinha, dei uma garfada na boca e joguei o resto fora. Ecaaaa! Apesar de diversos argumentos pelo vegetarianismo, nada é mais convincente pra mim que a sensação do paladar depois de me desfazer de imposições sociais. Ninguém nasce comendo carne, é acostumado. Eu voltei ao normal.

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Dorme Monalisa

Novembro 11, 2008 · 5 Comentários

Monalisa Budel dormindo, sábado de manhã.

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Continua

Novembro 7, 2008 · 1 Comentário

Paredes brancas são meu tormento e não haveria sensação pior pra me acompanhar durante a espera no hospital. Os minutos rastejavam cada vez mais longos quando pude finalmente ver meu filho e minha esposa.

 

O Leonardo chegou pra mudar nossas vidas. Pelo menos a minha, eu decidi, tinha que ser preenchida com momentos de alegria intensa, pra compensar tanta agonia da passagem até agora discreta que tive por este mundo. Que hora estranha pra nascer o meu primeiro filho! A coincidência só podia ser o aviso que eu precisava, e eu atendi.

 

Passamos dias vendo as ondas na praia, conhecendo o vai-e-vem da água. Barulho de mudança, pra mim uma terapia. Em casa, era o Leonardo de dia e uma nova esposa à noite. Eu a amava mais do que nunca, ela procurava entender minha nova fase e dávamos gargalhadas com o Léo. Uma linda mãe, um lindo filho.

 

Esta semana o Léo fez seu primeiro aniversário e tive uma surpresa: sobrevivi. Contrariei as expectativas do médico, que disse que eu teria apenas um ano de vida depois de descoberto o câncer.

 

O Léo já está mexendo com a areia na praia. A Mara chora e não sabe explicar por quê. O médico ainda diz que posso morrer a qualquer momento, mas meu filho me trouxe hoje uma palavra mais animadora que a do pós-graduado: “papai”.

 

Este texto foi escrito para a rodada especial dos leitores do blog Duelo de Escritores. O tema da rodada era “Um ano”. Obrigado à equipe do blog pelo incentivo. Fazia mais de um ano que eu não escrevia um conto.

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Oba-Obama

Novembro 6, 2008 · 2 Comentários

oba-obama-6002

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Exposição

Novembro 5, 2008 · 5 Comentários

Não lhe importava ouvir o discurso pré-nupcial, gasto

O vento batia úmido no pescoço ao recostar-se na porta

A mulher não queria só encostar a primavera nos seios

Mas também aquela voz, sem o discurso

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