Sentei ao lado dele com a programação do Festival Universitário de Teatro de Blumenau, em julho. Eu queria que o povo desse mais atenção pra arte, mas o festival estava escondido, esquecido. Ele puxou um diálogo que conduzisse àquela frase final, doída: “o Daniel ainda acredita no ser humano”. E riu.
Astolfo, mais de 20 anos de jornalismo. Depois da enxurrada, veio dizer que o povo catarinense sempre foi solidário e agora precisa ser mais ainda. Como se ele também acreditasse.
Claro, Astolfo, agora é bonito vir a público pedir isso. Amanhã não vai ser. Tu tens aqui um nome que não é o teu, pra te preservar de qualquer açoite. Porque tu sabes como é feio agora dizer que o ser humano não tem jeito.
Eu sentia falta de maior cobertura jornalística pra um evento do porte do Festival de Teatro da minha cidade, e ele ria. Porque não vale a pena falar de respeito ao próximo, sensibilidade. Vale a pena dizer que alguém matou, tem que ser preso, que o político roubou, que a estrada está inadequada pra tanto carro. Claro, porque sensibilidade nada tem a ver com condições dignas pro povo viver. Claro, porque arte é desnecessária, ela só ajuda a entender o ser humano, essa raça que não se respeita e tem que ficar lá, de lado, pros políticos poderem ditar o ritmo da evolução. Esse povo não-instruído, essa gente que deveria ter a casa desmoronando. É isso, Astolfo? A casa desmoronando? Tu que dizes que viver é vencer, que cada um tem que se preocupar com seus interesses e apenas ser o melhor de todos no que faz, Astolfo, agora vens pedir que essa gente se ajude, agora vens falar de sensibilidade. Tu és a escória!
Estou farto, Astolfo, estou fudido, fedido e espero mais amor daqui pra frente. Tu vais falar da mesma coisa de sempre amanhã, quando o discurso efêmero da solidariedade não valer mais a pena pra tua imagem de formador de opinião. Diga agora, em texto público, que não vale a pena falar de amor! Propagador do ódio!








