Sentei ao lado dele com a programação do Festival Universitário de Teatro de Blumenau, em julho. Eu queria que o povo desse mais atenção pra arte, mas o festival estava escondido, esquecido. Ele puxou um diálogo que conduzisse àquela frase final, doída: “o Daniel ainda acredita no ser humano”. E riu.
Astolfo, mais de 20 anos de jornalismo. Depois da enxurrada, veio dizer que o povo catarinense sempre foi solidário e agora precisa ser mais ainda. Como se ele também acreditasse.
Claro, Astolfo, agora é bonito vir a público pedir isso. Amanhã não vai ser. Tu tens aqui um nome que não é o teu, pra te preservar de qualquer açoite. Porque tu sabes como é feio agora dizer que o ser humano não tem jeito.
Eu sentia falta de maior cobertura jornalística pra um evento do porte do Festival de Teatro da minha cidade, e ele ria. Porque não vale a pena falar de respeito ao próximo, sensibilidade. Vale a pena dizer que alguém matou, tem que ser preso, que o político roubou, que a estrada está inadequada pra tanto carro. Claro, porque sensibilidade nada tem a ver com condições dignas pro povo viver. Claro, porque arte é desnecessária, ela só ajuda a entender o ser humano, essa raça que não se respeita e tem que ficar lá, de lado, pros políticos poderem ditar o ritmo da evolução. Esse povo não-instruído, essa gente que deveria ter a casa desmoronando. É isso, Astolfo? A casa desmoronando? Tu que dizes que viver é vencer, que cada um tem que se preocupar com seus interesses e apenas ser o melhor de todos no que faz, Astolfo, agora vens pedir que essa gente se ajude, agora vens falar de sensibilidade. Tu és a escória!
Estou farto, Astolfo, estou fudido, fedido e espero mais amor daqui pra frente. Tu vais falar da mesma coisa de sempre amanhã, quando o discurso efêmero da solidariedade não valer mais a pena pra tua imagem de formador de opinião. Diga agora, em texto público, que não vale a pena falar de amor! Propagador do ódio!



2 respostas Até agora ↓
Belisa Santos // Novembro 27, 2008 às 3:48 pm
Arte e amor sempre foram deixados de lado, porque não dão lucro nem viram capa de jornal. Aí dá no que dá.
Triste.
mona lisa budel // Novembro 27, 2008 às 6:52 pm
Vejo e sinto muito por isso, e sinto mesmo … que a imprensa se utiliza de momentos extremamente catastróficos como este para usar e extrapolar na hipocrisia … são mestres nisso, ontem um reportagem mostrou uma menina q juntava um brinquedo ( um papai noel de pano) do chão … a cena era claramente dirigida, qualquer leigo percebia, fiquei indignada com o uso da imagem, não basta a familia ter perdido tudo, já não temos mortos suficientes nesta tragédia, empresas despedaçadas e amigos desabrigados …. os carniceiros ainda precisam sobrevoar a nosso momento de caos … fora isso, é preciso falar sobre o bonito trabalho e o banho de responsabilidade e sensibilidade com as necessidades da população que a rádio nereu, a furb e tv galega deram nas outras emissoras, era possível perceber que ali não haviam urubus a espreita ..