O amigo blogueiro Fábio “Sábio” Ricardo trouxe uma provocação à provocação no seu comentário ao post “Caríssima Dona Schlindwein”:
“Só não concordo com uma coisa: com arte se brinca, sim.
Com arte não se administra, isso sim! Colocar a arte num padrão de burocracia administrativa e esquecer que ela envolve muito mais que politicagem é foda.”
Respondeu, assim, ao meu pedido para que a presidente da Fundação Cultural explique ao prefeito que “com arte não se brinca”, já que a nomeação de Marlene para o cargo me pareceu (e parece) um descaso.
O que o Fábio chama de burocracia, no entanto, entendo como sociologia. A arte ocupa papel fundamental na política, que em Blumenau é gerida pelo prefeito.
Em “A desumanização da arte”, do espanhol José Ortega y Gasset, disponível na Biblioteca Pública Municipal, o autor explica muito bem esse papel.
“A arte atua, pois, como um poder social que cria dois grupos antagônicos (…) é que ela divide o público nestas duas classes de homens: os que a entendem e os que não a entendem”.
O autor coloca a arte como impopular, porque a massa não a entende. Mas no desafio reside o mérito. Temos pessoas belas na cidade porque a beleza é um valor estabelecido. Quando a arte tiver tantos apreciadores quanto merece, teremos também pessoas inteligentes. O autor continua:
“Aproxima-se o tempo em que a sociedade, desde a política até a arte, voltará a se organizar, segundo se deve, em duas ordens ou categorias: a dos homens egrérios e a dos homens vulgares”
Quanto investimento se perdeu! Quantos traficantes se formaram, quantos adolescentes não prestaram atenção na aula por mais que se invista em educação, quanta fluoxetina se tomou porque a arte não foi levada ao povo? Quantos rumos certos deixamos de tomar por não termos a arte para nos questionar e ajudar a descobri-los? Quantas mulheres apanharam porque o marido nunca visitou uma exposição? Quanto preconceito se incrustou na sociedade e nos impediu de aceitar o outro, de ser mais feliz, por chegarmos ao final de semana quase sempre sem uma peça de teatro sequer para assistir ou por termos como leitura apenas o livro que diz que a cidade é uma maravilha?
Bem sei, Fábio, que o “brincar” pode dar um sentido lúdico e belo à arte, mas na questão política ele fere os direitos de todo cidadão, principalmente dos que querem o bem de Blumenau.
Vale a pena ler
“Ouve a gente, Dona Marlene”, crônica de Marcelo Labes.
“Homenagem”, poema de Rodrigo Oliveira



1 resposta Até agora ↓
Fábio Ricardo // Fevereiro 10, 2009 às 1:40 pm
É a questão dos sentidos das palavras. E, com o perdão do trocadilho, eu gosto mesmo de “brincar” com elas.
É a esse sentido lúdico a que me refiro. Nós precisamos sim brincar com a arte, não com o sentido de sacaneá-la ou largá-la ao acaso. Nós precisamos brincar com ela justamente para nos tornarmos novamente amigos da arte.
Colocar um administrador de empresas ou um político para gerir a arte do município é uma afronta àqueles que gostam de brincar com a arte.
Minha preocupação é justamente a de que ao se preocupar tanto em tratá-la como gente grande, nós esqueçamos que a arte na verdade é uma criança.
E não uma ciência exata.